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Estudios Sociales

19.02.2013
Brazil
POR |

O futebol brasileiro e suas contradições

A partir de uma análise cultural, o futebol é uma forma que a sociedade brasileira encontrou para se expressar, em certo modo, é uma forma de cidadania
Tanto no futebol como na vida em sociedade: o estilo de jogo brasileiro

 

Para explicar o papel que o futebol representa no Brasil, estamos defendendo que houve uma combinação entre as exigências técnicas do futebol e as características sócio-culturais do povo brasileiro. O futebol seria, ao mesmo tempo, um modelo da sociedade brasileira e um exemplo para ela se apresentar. Em outras palavras, o futebol constituir-se-ia, por um lado, numa imagem da sociedade brasileira e, por outro, num exemplo que daria a ela um modelo para se expressar. O homem brasileiro comportar-se-ia na vida como num jogo de futebol, com chances de ganhar ou perder - e às vezes empatar -, tendo que se defrontar com adversários, tendo que respeitar certas regras, mantendo respeito por uma autoridade constituída, jogando dentro de um tempo e de um espaço, marcando e sofrendo gols, fazendo jogadas de categoria e cometendo erros fatais. Após uma derrota, haveria sempre a chance de se recuperar no próximo jogo.

 

É nesse sentido que Roberto DaMatta - um estudioso do futebol como fenômeno cultural brasileiro - afirma que cada sociedade tem o futebol que merece, pois deposita nele uma série de questões e demandas que lhes são relevantes. Assim, o futebol brasileiro não é apenas uma modalidade esportiva com regras próprias, técnicas determinadas e táticas específicas; não é apenas manifestação lúdica do homem brasileiro; nem tampouco é o ópio do povo, como preferem alguns. Mais que tudo isso, o futebol é uma forma que a sociedade brasileira encontrou para se expressar. É uma maneira do homem nacional extravasar características emocionais profundas, tais como paixão, ódio, felicidade, tristeza, prazer, dor, fidelidade, resignação, coragem, fraqueza e muitas outras.

 

Pois não é no futebol que o torcedor machão chega às lágrimas, tanto de alegria como de tristeza? Não é no futebol que a gente aprende que após uma seqüência de derrotas virá a redentora vitória? Não é no futebol que se aprende que não se pode comemorar antes que o juiz apite o final do jogo? Não é o futebol que ensina que não se pode entrar em campo de salto alto? Não é o futebol que ensina que não se deve subestimar o adversário? Não é o futebol que por vezes faz todas as emoções extrapolarem desordenadamente levando a confrontos físicos com torcedores adversários?

 

Talvez a principal característica do futebol brasileiro seja a rica mistura entre o jogo coletivo e o individualismo de nossos atletas. O futebol, como esporte coletivo, exige uma tática grupal para uma equipe obter vantagem sobre outra. Para isso é necessário que um time mantenha a posse da bola e a faça circular, procurando envolver o adversário, posicionando-se com vantagens para conseguir atingir o alvo. Mas isso não garante que a equipe marque gols e vença a partida. De fato, em muitos jogos ocorre um claro domínio por parte de uma das equipes sem que isso resulte em vantagem em termos de pontos. Pode mesmo ocorrer que uma equipe com menor tempo de posse de bola vença o jogo. Isso porque, além de uma dinâmica tática da equipe, é necessário o individualismo dos jogadores para vencer a defesa adversária. Ora, se as duas equipes jogarem rigidamente dentro de padrões táticos exaustivamente treinados, os jogos terminariam sempre empatados. Portanto é necessário que um ou mais jogadores, em algum momento do jogo, se liberem do esquema tático da equipe e ousem uma jogada individual. Essa ousadia pode resultar em fracasso e até na derrota, mas também pode dar certo e resultar num lance de grande beleza plástica e até em gol e vitória para a própria equipe.

 

Será que o destaque do futebol brasileiro não se deve à feliz combinação entre tática coletiva e tática individual? Ou, dito de outra forma, numa relação entre o eu e o grupo, numa coragem individual para se libertar das imposições do jogo coletivo? É óbvio que isso pode levar ao modelo do "jogador fominha", aquele que só pensa em si e não se preocupa com o sucesso da equipe. Seria uma distorção, ou exacerbação da necessidade de conciliação entre jogo individual e coletivo. Se isso for verdadeiro, poderíamos supor que essa característica do futebol brasileiro, contrastando virtuosismo técnico individual com anarquia tática coletiva, deve-se à própria forma do homem brasileiro se dispor no mundo, conciliando e tirando vantagem da expressão individual sobre um plano coletivo. Poderemos aqui lembrar do jeito malandro tipicamente brasileiro. Como uma finta no futebol, o malandro é aquele que tem que dar um jeito para conseguir dinheiro, para levar alguma vantagem, para sobreviver apesar das adversidades, para conseguir, enfim, marcar gols. É óbvio que ele necessita do grupo, mas ele não anula sua expressão individual perante a do coletivo. Se isso pode não ser sempre vantajoso, tanto no futebol como na vida em sociedade, acaba dando a característica do próprio estilo de jogo brasileiro: ousado, individualista, pouco afeto às táticas coletivas e, por vezes, fascinante, uma vez que gera jogadas e jogadores interessantes.

 

Um time tecnicamente inferior, com um pouco de sorte e se defendendo bem, pode ganhar de uma equipe superiora, fato que dificilmente acontece no voleibol, por exemplo, onde uma equipe melhor preparada impõe sua superioridade técnica. Um jogador sem virtuosismo consegue superar sua falta de técnica por meio de esforço físico e escolhendo uma posição correta para jogar. No futebol, as regras permitem aos jogadores a posse de bola por tempo indeterminado, favorecendo a habilidade do jogador e permitindo que ele seja irreverente com a equipe adversária, desmoralizando-a. A torcida sabe disso e começa a gritar "olé". Essa característica de posse de bola permite também, diferentemente de outros esportes, a "cera". Ou seja, o chamado anti-jogo de outras modalidades, no futebol é incorporado pelas regras, desde que ocorra com a bola em jogo.

 

As tradicionais regras do futebol, que os brasileiros e a FIFA - aliás, dirigida há mais de vinte anos por um brasileiro - relutam em modificar parecem refletir o jeito brasileiro de jogar e viver, permitindo a ousadia, a irreverência, a malandragem, o caráter incerto das ações, a superstição, a imprevisibilidade, a voluntariedade e a ambigüidade.

 

É nesse sentido que falamos das contradições do futebol brasileiro, apenas aparentes se procurarmos compreender a lógica cultural desse importante fenômeno nacional. Não é o Brasil o país dos contrastes e das ambigüidades? Um país cujo povo consegue conciliar criativamente a superstição com a religiosidade e a ciência. Um país que, entre o não e o sim, entre o pode e o não pode, descobriu o jeitinho brasileiro como forma de vida. Um país que encontrou no futebol sua melhor tradução, fazendo dele uma de suas maiores expressões.

Jocimar Daolio
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