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Educación Física

27.02.2013
Brazil
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A ginástica e a estética da retidão

O movimento humano explicado pela ciência experimental, é um elemento que se agrega à constituição de formas de poder que incidem sobre o corpo e seus gestos
Os mineiros e a mina de Emile Zola em Germinal permitem um tipo de compreensão do aprendizado humano

 

Expressão bem elaborada de intervenção dirigida é a Ginástica que no século XIX, no Ocidente, afirma-se como modelo técnico de educação do corpo e integra o discurso do poder. De certo modo a Ginástica vai conferindo visibilidade a uma imagem de corpo desejada por uma sociedade que se pauta, na aparência, pela rigidez de posturas.

 

Voltada para o conjunto das populações urbanas, objeto central de preocupação do poder, a Ginástica garante seu lugar na opinião pública e constitui-se como um saber a ser assimilado, pois ajusta-se aos preceitos científicos e é por eles explicada. Aparece despida de suas marcas originárias do mundo do circo, da gestualidade característica dos acrobatas e daqueles que possuíam o corpo como espetáculo. Em seu discurso e prática alarga-se o temor ao imprevisível que o circo, aparentemente, apresenta com seus artistas de arena em suspensões e gestos impossíveis e antinaturais, a mutação constante de seus corpos que resultam em ameaça ao mundo de fixidez que se desejava afirmar.

 

Ginástica apresentava-se então como técnica capaz de ensinar o indivíduo a adquirir forças, armazenar e economizar energias humanas, colocando-se como o contrário do circo, do espetáculo de rua, lugares nos quais julgava haver o uso desmedido de forças, um gasto inútil de energia. Contraditoriamente, porém, é nas atividades circenses que a Ginástica tem um de seus mais sólidos vórtices, sempre negado pelos seus discursos e pelo seu silêncio. Amoros, um dos fundadores da ginástica francesa no século XIX, faz alusão aos exercícios cênicos ou funambulescos em sua obra, afirmando que não os exclui, mas que lhes imprime sempre um caráter de utilidade. Reafirma também que o propósito de seu método não é o de entreter, nem de divertir por meio de demonstrações e usos de força física e muito menos fazer dos exercícios um mero e frívolo prazer.

 

A Ginástica que afirma converte-se em um modelo de educação veiculado pelo poder, uma educação capaz de preservar as forças físicas e ensinar o indivíduo a adequação de seu uso. Esta compreensão da Ginástica permite inscrevê-la como constitutiva da mentalidade científica, pragmática e prática que se consolida ao longo do século XIX.

 

Com Amoros cria-se uma paixão pela cultura do corpo, e seu método, embora possuindo fortes vínculos militares, transforma-se num verdadeiro modelo de aprendizagem coletiva do exercício. Com seus estudos fundamentados na mecânica, anatomia, fisiologia, e também na filosofia e no canto, surge um tipo de sistematização e aprofundamento que irá se generalizar na segunda metade do século XIX, sobretudo com os estudos de Marey e Demeny, e aquele que ensina Ginástica passa a ter uma competência afirmada.

 

A segunda metade do século XIX é um período no qual a Ginástica, embora ainda pautada por questões militares, estará cada vez mais próxima de cientistas, médicos higienistas e laboratórios de pesquisa. Seu caráter higiênico alarga-se e imprime-se, então, uma outra estética, a estética da retidão. Multiplicam-se neste momento, pesquisas sobre o movimento, sobre sua utilização na vida cotidiana e, particularmente, no mundo do trabalho.

 

A imagem, como resultado técnico da utilização de diferentes aparelhos, torna-se parte integrante das explicações e constitutiva dos discursos sobre o movimento humano, este novo objeto de estudo da ciência experimental que potencializa o rigoroso esquadrinhamento do corpo realizado no século XIX.

 

Como um dos personagens centrais dos estudos que tematizam a imagem como forma de conhecimento, vamos encontrar E. J. Marey que, com seu auxiliar G. Demeny, realizou os estudos mais exatos e rigorosos sobre a locomoção humana, o vôo dos pássaros, o galope do cavalo, a água que corre. Marey e Demeny criaram os processos precisos do método gráfico, cronográfico e cinematográfico para a compreensão do movimento humano a partir de estudos do movimento de aves e animais.

 

Apoiados em novas e importantes sínteses teóricas, como a descoberta das leis da termodinâmica, que permitiu a compreensão das relações entre calor e energia, consolidaram para o estudo dos gestos humanos uma racionalidade dada a partir da máquina, o que possibilitou um novo impulso às questões relativas à Educação Física.

 

Demeny, como colaborador de Marey, vai ampliar as associações possíveis entre os estudos realizados por este pesquisador sobre os gestos humanos no mundo do trabalho e a Ginástica.

 

Higienista convicto, Demeny acreditava que todos os problemas ligados aos altos índices de mortalidade, o avanço das doenças degenerativas, a diminuição da estatura, esterilidade, demência e loucura, eram problemas causados pela ausência de uma boa educação. Para ele, o indivíduo saudável e ajustado seria o resultado de uma boa educação, somada a uma educação física e a uma boa higiene. O papel social da Educação Física seria o de ensinar o indivíduo a evitar o desperdício de forças nas atividades e, assim, ela seria benéfica tanto para formar atletas como para melhorar a condição dos fracos.

 

Talvez um olhar menos generalizante, como aquele indicado por Demeny, possa trazer uma compreensão menos técnica e pragmática sobre homens e mulheres e, assim, permitir um mergulho nos modos de aprender a partir da necessidade primeira da sobrevivência.

 

O indivíduo aprende a utilizar suas forças no jogo cotidiano de manter-se vivo, independente das técnicas corporais, meticulosamente elaboradas nos laboratórios de pesquisa para “ensinar” a ele o uso correto das mesmas.

 

Recorro aqui ao universo literário e suas emanações do vivido e permito-me ouvir outras vozes deste recorte de tempo. O romance oitocentista, sobretudo o romance realista, nos conduz a lugares e a sentimentos, a modos de viver, por vezes obscurecidos pela névoa opaca tecida nas teias do poder.

 

Quando E. Zola elege como personagens centrais de seu romance Germinal os mineiros e, em sua narrativa, conduz o leitor ao universo escuro das entranhas da terra - a mina, permite um tipo de compreensão do aprendizado humano que vai abarcar o universo sensível, contrapondo projetos estéticos e políticos. Entrar na mina é, para Zola, mergulhar num universo de cegueira ardente, numa escura noite onde o corpo forja o espaço e dobra-se, contorce articulações e membros, fazendo-se alavanca para sustentar a terra.

 

Os mineiros ensinavam uns aos outros o que aprendiam nesta escuridão. Indicavam o modo mais econômico de suportar o dia adequando suas forças. Passavam sua experiência corporal gestual, conforme pode-se constatar nesta passagem de Germinal, onde uma mulher mineira mais experiente ensina a um homem ali recém chegado o melhor modo de trabalhar:

 

O corpo devia estar inclinado, com os braços bem retesados, de modo que empurrasse com todas as forças, com membros e com os quadris. Ele acompanhou-a numa viagem vendo-a subir, com os quadris caídos e os punhos tão embaixo que parecia trotar a quatro pés... Ela suava, arquejava, estourava por todas as juntas; mas sem uma queixa, com a indiferença do hábito, como se a miséria comum consistisse, para todos, em viverem assim dobrados.

 

A determinação do espaço e das ações ali exigidas pelo corpo e seus gestos era de tal dimensão que mesmo fora da mina os mineiros “acocoravam-se, com os cotovelos nos flancos e as nádegas apoiadas sobre os calcanhares [...] sem sentirem necessidade de um calhau ou de uma tábua para se sentarem”.

 

Havia ali, no movimento dos dias e das noites uma autoeducação corporal e a internalização de economia de forças do interior de seus próprios corpos. Gestos medidos, gestos pensados, gestos contidos. Não havia ali nenhuma explicação científica. O corpo aprendia, no silêncio, a gestualidade necessária e a adequada utilização das forças. Esta passagem de Germinal indica o aprendizado rápido de um homem recém chegado a mina que num tempo curto, “respirava sem lhe custar as poeiras do carvão, via claro às escuras, suava descansado, afeito à sensação de ter desde a manhã até a noite a roupa ensopada sobre o corpo. Aliás, não esbanjava desastradamente as forças; tinha-lhe vindo uma destreza de bom operário”.

 

O não esbanjamento das forças e sua distribuição adequada no tempo e no espaço são aprendizagens ditadas pelo lugar social ocupado. A destreza do bom operário de que nos fala Zola, fora conseguida pela necessidade de manter-se vivo. Uma gestualidade contida, medida, comedida vai constituindo os sujeitos que habitam os espaços escuros de construções, minas, fábricas. Seus corpos aprendem a gestualidade que lhes é permitido aprender. Assim, é possível afirmar que a arquitetura das habitações, dos locais de trabalho e de descanso exercem um controle na constituição do indivíduo e de sua gestualidade.

 

Contudo, na segunda metade do século XIX, há ainda que se considerar o discurso sobre a saúde, sendo o estudo do movimento uma de suas formas discursivas. Os estudos sobre o movimento criaram um conjunto de regras e de explicações que permitiram diferentes formas de intervenção sobre o corpo e afirmaram uma estética da retidão.

 

O movimento humano -e o modo correto de executá-lo no trabalho, na vida cotidiana ou em situações de exercitação dirigida, por exemplo nas ginásticas, jogos etc.- explicado pela ciência experimental, é um elemento que se agrega à constituição de formas de poder que incidem sobre o corpo e seus gestos, sendo estes plenamente compreendidos como um comportamento total do indivíduo. Estava dada, assim, a estética da retidão e todas as implicações políticas que sempre estão contidas em projetos estéticos.

Carmen Lúcia Soares
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