EFDeportes.com

Facebook Twitter Google +

Recreación

22.07.2015
Brazil
POR |

O lazer segundo Norbert Elias e Eric Dunning

A finalidade desse texto é proporcionar a interpretação de Norbert Elias e Eric Dunning sobre o lazer nas sociedades contemporâneas
As atividades de lazer possibilitam experimentar em público fortes emoções, podendo propiciar manifestações coletivas de excitação, diferente das excitações sérias conhecidas na vida rotineira diária

As características gerais que melhor definem o lazer

Há estudos que atrelam as explicações das atividades de lazer em termos da sua função, como um meio de proporcionar relaxamento as tensões ou a recuperação do desgaste do trabalho, indicando que as tensões devem ser avaliadas como algo negativo. Elias e Dunning não condenam as tensões como algo prejudicial, esse não é o ponto de partida. Os autores procuram explorar as necessidades que os seres humanos revelam no seu cotidiano por uma dose específica de tensão.

Para tanto, os autores esboçam uma tipologia preliminar sobre as atividades de tempo livre, buscando as características comuns das atividades de lazer. Resumidamente destacamos as três tópicos:

  • 1º Atividades relacionadas as rotinas do tempo livre, subdividida em: provisão rotineira das necessidades biológicas e cuidados com o próprio corpo; rotinas familiares e tarefas com a casa;
  • 2º Atividades intermediárias de tempo livre, voltada para a formação, auto-desenvolvimento e auto-satisfação subdividida em: trabalho particular voluntário ou para si próprio, atividades religiosas, hobbies, participações em associações, leituras entre outras.
  • 3º Atividades de lazer, subdivididas em: encontros sociais formais ou informais, lazer comunitário, festas; atividades de jogo ou miméticas de elevado grau organizacional (uma partida de futebol), participar como espectador de atividades miméticas de alto grau de organização, participar de atividades miméticas de menor grau de organização (caminhada ou dança); miscelânea de atividades esporádicas, prazerosas e multifuncionais.

 

O amplo controle que os seres humanos exercem sobre si mesmo

Nas sociedades mais diferenciadas e complexas profundamente organizadas, com alto grau de interdependência, as pressões e as formas de controle externo e interno são extensivas a todos os momentos vividos pelo seres humanos, resultando na monotonia das emoções. Tanto no tempo de não-lazer quanto no tempo de lazer as restrições estão presentes, embora de forma diferenciada.

Em diversas situações, por alguns instantes ou por longo período, os seres humanos têm que sublimar suas emoções, subordinando-as ao conjunto de interesses que se exerce direta ou indiretamente sobre eles, pelas expectativas indicadas aos outros devido a sua posição social. Há um padrão de atitudes, cujo demais integrantes esperam que venham ser cumpridas, isso implica no refrear dos sentimentos e impulsos em muitas situações da vida cotidiana. Significa que não há atitude natural dos homens, na verdade o que ocorreu foi o condicionamento dos costumes, resultando no elevado autocontrole nas sociedades mais complexas.

Numa sociedade onde o controle social e individual se apresenta de forma mais aguda, sentimentos e impulsos são cada vez mais controlados, apresentando uma propensão de se viver próximo da condição de monotonia. O desenvolvimento do autocontrole, que envolve o controle dos impulsos libidinais, afetivos e emocionais espontâneos, faz parte inicialmente da condição básica para a sobrevivência em sociedade. Cada vez mais as novas gerações aprendem a controlar os impulsos provocando novas tensões, não atendendo as necessidades de satisfação dos instintos e impulsos afetivos e emocionais. As tensões resultantes desse gênero de conflito estão presentes em larga escala, assim como suas contra-medidas.

 

A emoção que os seres humanos procuram no lazer

As atividades de lazer apresentam características específicas relacionadas ao estágio de civilização: diversão, repugnância à violência, mas o que há de mais característico é a possibilidade de experimentar em público fortes emoções, podendo propiciar manifestações coletivas de excitação, diferente das excitações sérias conhecidas na vida rotineira diária. A música, o teatro, os esportes, entre outros, representam uma interrupção “moderada” das restrições.

As atividades de lazer possibilitam a criação de tensões, animando os sentimentos, sobretudo numa esfera imaginária, onde medo ou prazer, tristeza e alegria, entre outros tantos sentimentos, são evocados e colocados em contraste.

A categoria mimética não pode ser considerada fantasia, pois faz parte integral da realidade social, sendo o pólo oposto da uniformidade das restrições emocionais. Os sentimentos acabam fluindo neste contexto simbólico, aliviando-se o fardo inerente à vida cotidiana. Na vida cotidiana os seres humanos se esforçam para conter suas emoções, decorrentes de procedimentos que foram desenvolvidos durante várias gerações, e isso não é uma atitude “natural”, há realmente um empenho para manter esse controle. Viver em sociedade e conservar esse amplo controle dos sentimentos de acordo com padrões desenvolvidos, só é possível se ocorrer à aprendizagem, para se tornar humano os impulsos primários são colocados sobre controle, ajustados a cada situação social construída. Aprendizagem do autodomínio passa ser uma condição humana universal.

Os efeitos do lazer no ser humano estariam ligados a catarse, conceito médico utilizado referente ao expulsar do corpo, as substâncias nocivas, tendo efeito curativo, por meio de excitação agradável em relação às excitações do tipo crítico sérias, sugerindo que algumas atividades provocam algo similar. O efeito curativo da esfera mimética consiste no fato da excitação que produzem, em contraste com as excitações críticas sérias serem agradáveis. A contra-medida de lazer passa ser entendida por meio do efeito restaurador da satisfação.

Teria seu foco em primeira instância nas atividades de esportes e atividades de lazer por si e seria uma teoria na qual é feita uma tentativa de sintetizar elementos de biologia, psicologia, sociologia e história. E teria que ser uma teoria que se focasse igualmente sobre processos cognitivos e emocionais das pessoas, procurando entender suas atividades de esporte e lazer no contexto do fluído e sincronicamente mudando “figurações”, isto é, cadeias e correntes de interdependência espaço-temporal, as quais eles formam e nas quais um hábil equilíbrio de poder e um correspondente trabalho entrelaçado de tensões sempre formam a parte crucial.

Pela amplitude da proposta não seria errôneo considerar como uma teoria ainda em elaboração, e que para seu entendimento, merece destaque o fato de despertar um tipo específico de excitação. Julgamos que as observações dos fatos miméticos são capazes de promover a discussão além de análises dualistas (trabalho e lazer) e funcionalistas (liberar tensões, provenientes da vida estressante), de um campo de pesquisa tão complexo.

Fernando Guilherme Priess
Fernando Renato Cavichiolli
Jackson Vitorassi
VER NOTA COMPLETA INICIO
LEER MÁS
El Webstudio