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Educación Física

17.05.2015
Brazil
POR |

Origem da Capoeira e seus fundamentos na formação do professor de Educação Física

A incorporação da Capoeira na área de Educação Física atende a uma necessidade de reconsideração histórica e valorização da cultura corporal nacional
Capoeira nas ruas
 ‘Jogar Capoëra - Danse de la guerre’. Johann Moritz Rugendas (1835)

Introdução

A capoeira surgiu no Brasil escravocrata a partir da vinda de escravos africanos para o país em 1548. Desde seu início a capoeira caracterizou-se como uma prática de resistência a dominação e valorização da cultura africana, identificada como uma mistura de luta, dança, cultura popular e música. Evidentemente, a capoeira enfrentou uma série de preconceitos e rejeições até o seu recente reconhecimento como patrimônio histórico nacional pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Além da sua história cheia de significados e simbologias a capoeira possui um riquíssimo vocabulário corporal e está imbuída da valorização da cultura afro-brasileira e da consciência negra, fatos que possibilitam a sua qualificação como manifestação cultural que deve ser aquilatada e incluída, inclusive na formação do professor de Educação Física. Infelizmente, a capoeira ainda continua a ser negligenciada como conteúdo da cultura corporal essencial a formação e prática do Licenciado em Educação Física, salvo algumas exceções, a maioria dos cursos superiores não a incluem como conteúdo curricular.

Diante dessas considerações, o objetivo central desse trabalho se inscreveu na ação de investigar argumentos e possibilidades favoráveis à implementação da prática da capoeira como disciplina curricular dos cursos de formação em Educação Física, apoiando-se na assertiva de que a capoeira é um conteúdo culturalmente rico e pedagogicamente significativo. Visou-se também apresentar uma síntese da trajetória histórica da capoeira, suas vertentes e principais rituais.

    Para tanto, adotou-se um encaminhamento teórico-metodológico fundamentado na pesquisa bibliográfica e na investigação histórica de fontes primárias e secundárias. Recorreu-se, sobretudo, a obras de especialistas no assunto, contudo sem negligenciar possíveis conexões com autores preocupados com a formação em Educação Física que tratam da capoeira como assunto secundário em suas obras.

 

Capoeira e história: origem e contextualização

As origens da Capoeira remontam o Brasil escravocrata e o tráfico negreiro africano. O confronto dessas ações e contextos tornou possível o florescimento dessa prática corporal. O negro na condição de escravo nunca se submeteu totalmente à violência do branco, quer seja física ou simbólica, criando suas próprias estratégias de resistência.

As lutas de resistência foram permeadas por sua cultura original, pela preservação dos aspectos da religiosidade, da música, da medicina, da culinária e da língua. A oposição a dominação também construiu ações diretas organizando-se uma luta pela libertação. Nesse contexto, a Capoeira teve a sua criação e desenvolvimento exercendo papel fundamental na preservação das tradições e rituais e no confronto direto com o opressor.

Segundo essa linha de argumentação, completa a formação e organização da Capoeira as raízes e práticas culturais africanas. Foi da Angola, com predominância da etnia Bantu, que veio a maioria dos escravos trazidos para o Brasil. Essa forte influência da cultura Bantu acabou trazendo para o Brasil vários elementos ligados a rituais praticados por algumas tribos, entre eles o N'golol (o Dança da Zebra) que somados a outros rituais provenientes da África, concorreram como influência fundamental para o surgimento da Capoeira.

Após o período escravocrata a Capoeira continuou a ser praticada, especialmente pelos escravos libertos e os grupos sociais que se originaram desse segmento. Desse modo, durante todo o período do Império, a capoeira foi vista de maneira preconceituosa associada à marginalidade e a depreciação da cultura africana. A República aprofundou o combate e negação da prática da capoeira como bem cultural. Foram à elite e o governo republicano os grandes responsáveis em relacionar oficialmente a imagem do capoeirista à do malandro e vagabundo, que sem ter qualquer tipo de trabalho, ganharia a vida com pequenos delitos, somente trazendo prejuízos à sociedade.

A imagem e reconhecimento da capoeira só começaram a ser modificados com a chegada de Getulio Vargas ao poder (a partir de 1930) essa valorização foi gestada ao longo do Estado Novo, época que passa a operar um novo processo de construção da identidade nacional. Nesse processo, a figura do mestiço não foi vista de maneira negativa, ao contrário, “nossa coloração vira ponto de mérito”, ressaltando-se o ideal de um Brasil mestiço.

Como bem o lembra Lília Schwarcz (1993), a cultura que foi escolhida como a representante oficial do Brasil nos anos 1930 foi à mestiça, procurando um resgate ou criação de manifestações “genuinamente brasileiras” em diversas esferas. Nesse quadro a capoeira deixou de ser considerada prática ilícita, deixando de figurar no Código Penal em 1937.

Nesse contexto de revalorização da cultura nacional surge em 1937 à figura de Manoel dos Reis Machado, o "mestre Bimba", personagem fundamental para a reconstrução e propagação da prática da capoeira. Mestre Bimba aproveitou o enaltecimento do ideal mestiço para construir uma luta pela defesa da capoeira e sua ressignificação como "legítimo esporte brasileiro", defendida, inclusive, por uma parte da intelectualidade brasileira. Nesse processo de readequação Mestre Bimba aliou a prática da capoeira movimentos de artes marciais orientais e ocidentais, como karatê, Jiu-Jitsu e luta greco-romana, trocando a ritualidade e tradição pela agilidade e eficiência.

Como reação a essa forma de apropriação da capoeira, teve início um movimento de oposição liderado por Vicente Ferreira Pastinha, o "mestre Pastinha", defendendo o resgate da ancestralidade africana da capoeira. Essa corrente recebeu o nome de Capoeira Angola. Ao contrário do discurso de desportivização de mestre Bimba, Mestre Pastinha defendeu uma nova filosofia para a prática da capoeira, baseada numa estética de jogo mais simbólica e subjetiva, que continha um certo misticismo, lealdade com os companheiros de jogo e obediência as origens e tradições.

Estas duas manifestações distintas, angola e regional, persistem ainda hoje no ambiente da capoeira, demarcando espaços e ações. Ambas tiveram seu papel para a construção, ampliação e manutenção da capoeira no processo histórico brasileiro.

Essa riqueza de significações, brevemente apresentada, quando devidamente contextualizada e historicizada, dá à Capoeira uma identidade forte e profunda, construída através de toda uma história de luta por libertação e, sobretudo, pela afirmação de uma cultura que se recusa a ser subjugada. Diante dessas considerações, acredita-se que a capoeira pode contribuir na formação do licenciado e do bacharel em Educação Física, ampliando seu acervo cultural e suas possibilidades de intervenção no âmbito da cultura corporal tema que será aprofundado no próximo tópico desse trabalho.

 

Contribuição da Capoeira para a formação

A incorporação da Capoeira como conteúdo de formação na área de Educação Física atende a uma necessidade de reconsideração histórica e valorização da cultura corporal nacional. Além disso, recentemente a capoeira foi reconhecida pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) como patrimônio histórico nacional. O registro da Capoeira como patrimônio histórico imaterial ocorreu no dia 15 de julho de 2008 em Salvador, pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural do Iphan.

O acontecimento desse fato reforça a importância de considerá-la como expressão cultural que deve ser privilegiada. Nesse sentido, a capoeira enriquece a formação, especialmente por sua expressão como manifestação cultural afro-descendente, conjunto de sentidos, transmitidos historicamente, incorporados e expressos em formas simbólicas cheias de significado.

Não obstante, a Capoeira apresenta grande diversidade cultural e possibilidades de aprendizado. Dentre elas destaca-se a incorporação de elementos de lutas orientais, a preservação da herança cultural e da simbologia dos negros escravos que construíram uma série de artimanhas corporais visando sua defesa e libertação. Nessa esfera, a capoeira oferece múltiplas possibilidades de intervenção com formas competitivas, de espetáculo, de aprendizado e valoração cultural contemplando tanto a atuação do bacharel como a do licenciado.

O jogo permite, ainda, a compreensão de uma nova sensibilidade do sujeito que luta/joga capoeira, especialmente pela não utilização de golpes traumáticos permitindo uma ação dialogada que reconhece os limites do outro. Em substituição a violência e submissão do outro a prática da capoeira centraliza a importância do ritmo, do ritual e do lúdico.

Ressalta-se, ainda, que essa manifestação cultural se caracteriza pela luta pela libertação, símbolo de resistência contra os vários tipos de dominação, espaço para a construção da identidade e aprendizado cultural. Dessa forma, a prática da capoeira configura-se em um rico processo pedagógico pautado em uma educação libertadora. Nesse âmbito, a tematização da capoeira surge como possibilidade de aproximação da universidade com as manifestações culturais e étnicas, procedimento que tem recebido grande incentivo e atenção da comunidade local e dos governos centrais.

Acredita-se, também, a tematização da capoeira nos cursos superiores de Educação Física apresenta inúmeras possibilidades de conteúdo e prática que devem iniciar com a trajetória histórica da capoeira, desde o seu surgimento passando pela repressão de sua vivência até a sua institucionalização. Posteriormente, pode-se trabalhar seus fundamentos técnicos e ritualísticos, seus processos identitários, e seus sistemas de classificação e hierarquização.

 

Considerações finais

Diante das considerações arroladas, constatou-se que a capoeira pode contribuir significativamente para formação do licenciado e do bacharel em Educação Física, especialmente na ampliação de seu acervo cultural e das possibilidades de intervenção no âmbito da cultura corporal.

Outro fator que merece consideração refere-se à permuta da violência e da submissão do outro, característicos da maioria das lutas, pela importância do ritmo, do ritual, do aspecto lúdico, enfim da vivência e jogo com o outro que deixa de ser adversário e passa a ser parceiro.

Ressalta-se, por fim, o valor da capoeira como símbolo de resistência contra a dominação, prática educativa libertadora e a abertura da possibilidade de aproximar a universidade das manifestações culturais/étnicas e dos movimentos sociais.

Thiago Pelegrini
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