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Psicología del Deporte

08.07.2015
Brazil
POR |

A resiliência na ambientação de uma maratona no gelo

Apresentação de uma reflexão sobre resiliência na ambientação de uma maratona no gelo apresentada por uma emissora televisiva brasileira no ano de 2012
Maratona de 42 km no gelo da Antártica

Uma palavra inicial

Procuraremos conjecturar a respeito dessa intrigante relação entre maratona e resiliência. Como cenário para nossa reflexão analisaremos uma expedição à Antártida, registrada por uma emissora televisiva. Segue a descrição: no ano de 2012, uma emissora de televisão brasileira, apresentou uma série de reportagens, misturando reality show e jornalismo. A série foi denominada "Planeta Extremo", um slogan que ilustra o tom do seriado: práticas esportivas radicais em locações ambientadas em alguns dos lugares mais inóspitos do globo. O protagonista, apresentador e na maioria das vezes um dos protagonistas das performances, foi o respeitado repórter Clayton Conservani.

O primeiro desafio da expedição constituiu-se na disputa de uma maratona de 42 km e uma corrida de 100 quilômetros no gelo da Antártica, com temperatura em torno de 30ºC negativos e ventos de mais de 100 km/h.

Não nos parece nenhuma novidade a associação entre superação e corrida. Superação é um termo recorrente quando se reporta ao universo desportivo, seja na antiguidade, ou nos tempos atuais. Na Carta Olímpica o lema Citius (o mais rápido), Altius (o mais alto), Fortius (o mais forte) (p. 18) escrito pelo Barão de Coubertin, inspirado nos valores dos Jogos Olímpicos Helênicos, expressa a mensagem que o Comitê Olímpico Internacional dirige aos atletas de todo o mundo, convidando-os a superar-se de acordo com o espírito olímpico.

 

O conceito de resiliência

O termo resilire, em latim, significa “saltar para trás” ou “saltar acima”. Estranhamente também significa “afastar-se, desviar-se”. Nas acepções, podemos encontrar dois aspectos relacionados com o mesmo conceito, No primeiro, resiliência pode denotar a capacidade de “saltar”, “pular”, de “sair” de determinada circunstância, já o segundo aspecto pode-se entendê-la como espécie de “desvio”, a fim de evitar enfrentamentos, de situações adversas.

Aproximando-nos mais das ciências humanas (onde desenvolveremos mais expansivamente o conceito), especificamente na psicologia do desenvolvimento, o termo é compreendido como a capacidade do ser humano para recuperar-se da adversidade.

 

A atmosfera da maratona no gelo

A expedição se inicia com uma maratona de 42 quilômetros, mas não no local convencionalmente utilizado (ruas ou avenidas) para prática do atletismo, mas no gelo da Antártica. A temperatura varia em torno de 30ºC negativos e os ventos podem atingir mais de 100 km/h. Os brasileiros integram um grupo de 40 atletas de 16 diferentes países que disputaram as provas. Exclusivamente essa condição climática já seria suficiente para denotar a necessidade de grande superação física e psíquica, condições essas, inóspitas até para os insetos mais resistentes, dizem os especialistas.

Ao longo dos dias que antecediam a maratona, o repórter/corredor conheceu pessoas que estavam lá movidas por um ideal, para além dos limites da derrota ou vitória. Havia competidores que superavam a preocupação com a premiação, embora não fossem todos. Essas histórias foram construindo um ambiente, ou melhor, uma atmosfera transcendental.

Histórias como a de um pai que perdeu seu filho vítima das drogas e resolveu competir sozinho para homenageá-lo, já que o filho sonhava em realizar a prova. E ele dizia ter certeza que o filho dele estava lá espiritualmente. Naquele "deserto" branco, seria possível, de alguma forma reencontrar alguém tão especial? Por qual razão, as adversidades em algumas circunstâncias produzem tamanha transcendência?

Em outra bela narrativa temos um maratonista canadense que participa de corridas pelo mundo em busca de doações para combater a NOMA, doença que pode ser fatal em 80% dos casos.

No entanto, a ambientação conjectural da maratona, foi tão impactante que o próprio repórter/corredor/apresentador (Clayton Conservani) vivenciou uma profunda experiência de resiliência. Diante de uma situação tão adversa, ele admite que também teve que buscar uma motivação especial para vencer o desafio. “Estava absolutamente sozinho naquele deserto branco, cansado de corpo e de cabeça, quando pensei na minha filha. Como estava com uma mini-câmera, comecei a falar com a câmera como se fosse a minha filha. E isso me deu forças para continuar e ganhar posições na corrida. Foi uma experiência quase espiritual e de amor que ajuda a superar as dificuldades de uma situação como aquela". Fundamentando-se no relato do repórter, poderíamos dizer que experimentou uma significativa experiência de resiliência.

 

Uma palavra final

Observamos que a resiliência é uma possibilidade de ressignificação dos sentimentos produzidos em determinadas situações adversas. Ou dito em outros termos: A resiliência é um processo que pode trazer novo significado e senso de propósito ao indivíduo que a protagoniza. Seja em seu sentido mais estrito, quando resiliência quer dizer "saltar" determinadas circunstâncias infaustas, desviando-se de enfrentamentos ou sofrimentos desnecessários. Ou nos exemplos mais notáveis, que ilustram a capacidade do indivíduo se reconstituir, ir além, como em alguns dos casos aqui narrados. Deste modo, podemos afirmar que os desdobramentos da resiliência implicariam num rompimento com o passado lançando o olhar para um futuro reconstruído.

Vale lembrar que algumas circunstâncias, ainda que adversas, nos conferem possibilidades de experimentar os limites da condição humana; e romper, insurgir com os mesmos. E aos voltarmos de tais experiências, somos impelidos a ampliar nossa "marcha" pela liberdade, tornando-nos mais compassivos, generosos e solidários, como ficou explícito na atmosfera dessa maratona no gelo.

Não foi o resultado do evento competitivo, nem tão pouco a premiação ou o pódio da disputa que produziu o efeito de ensinar as pessoas a como superar uma prova, no sentido mais literal da palavra. Mas as razões que levaram esses anônimos competidores à condição de heróis resilientes foi o enfrentamento de condições adversas em prol de ideais coletivos, ou altruístas, infinitamente superiores aos que normalmente se tem expectativa de ver em uma maratona. Talvez essa seja uma grande mensagem de contestação aos imperativos categóricos que cerceiam o universo desportivo.

Kleber Tuxen Carneiro
Eliasaf de Assis
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